Dia desses estava eu contando pro meu marido que havia uma comunidade num site de relacionamentos cujo nome era “Eu odeio praia”. Daí, eu fiquei questionando a que ponto o ser humano chegou. Odiar a própria natureza e se declarar membro de um fórum onde milhares de pessoas têm o mesmo tipo de repulsão. Ora, ora... Teria o ser humano se tornado um ser deliberadamente urbano? Tomar banho de chuva, de rio, de mar, subir em árvores, olhar pro céu, contemplar as estrelas, pisar na terra, plantar, colher...Acho que esses verbos ficaram quase que em desuso. Ao perguntar pra um colega do meu filho se ele queria compartilhar com a gente um prato de nhoc caseiro naquela mesa com cara de família feliz de Sábado à noite, o menino me responde: “Não tia, prefiro o nhoc industrializado que é desidratado e mais saboroso.” Eu vi que a coisa é muito mais séria do que eu pensava. Vai muito além dos verbos que desaproximam o homem da natureza conduzindo o humano ao urbano.
Sempre acreditei que a simplicidade reside nas pequenas coisas. E que essas sim, trazem um certo estado de contentamento. Mas o que são as pequenas coisas? Cabe àquele que lê encontrar os seus próprios gigantes nas pequenezas da vida.
Ser humano, que ficou urbano, que se incomoda com a areia do mar, mas que desfruta da barulheira do bar, da fumaça do ar. Que se incomoda com a água salgada, mas que ama a vida agitada, a cerveja gelada. Que não gosta do calor do sol mas que adora tomar leite de caixinha com formol. Que acha asqueroso as algas, as águas vivas, os tatuís...e não liga de ver crianças sem lar tomando banho de chafarís, sem nunca ter lido gibis, com dedo sempre apontado pro seu nariz. Quanto moleque infeliz! ...Ai...quantos pingos nos is! E as multidões das praias? Ah...melhor encarar as multidões dos bancos, das filas de supermercado, do trânsito agitado, do show mais badalado. E o cheiro de maresia? Bem,o cheiro daquela poluição preta que empreguina as cidades é muito mais aceitável pro meu nariz... O cigarro, a fritura, a fumaça, o perfume Francês que a madame usa, comida de fast food, montanha de lixo inútil, tô cheia de gente fútil.
Ah, se tudo parasse por aí e que mesmo urbano ainda fosse possível o SER humano. Mas acho que todo esse contexto cruel, de viver em caixinhas apertadas, correr atrás disso , daquilo, não ter tempo pra nada, perder o sono na madrugada, ouvir os ditames do sistema, levar meses pra ler um poema, escolher um Deus que é melhor que o outro, não olhar pro céu, não gostar de praia, ter medo de ir pro mato, de ouvir o silêncio, se irritar com o canto do Bem te vi, se sentir seguro em multidões dos que se olham e não se vêem, conhecer a natureza pela televisão, comer nhoc desidratado e aquelas coisas enlatadas que as pessoas chamam de comida...Acho que tudo isso, apenas faz desumanizar àquele ser urbano que carece de SER humano.
OBS: A comunidade intitulada “ Eu odeio praia” que me inspirou a escrever esse texto possui 9.405 membros.